Como se escolhe um livro bom? Como se sabe que ele é, de fato, bom? Existem livros bons?
Nunca se escolhe um livro bom - ele escolhe você. Seja na prateleira da biblioteca, da banca de jornal, até mesmo na vitrine da livraria ou de um sebo. Ele te chama. Você bate o olho e é como se seus olhares se encontrassem e ele dissesse: "Ok, você me viu, agora me leve para casa, vamos!"
Livro bom é aquele que faz esquecer do mundo à sua volta, do trem cheio de pessoas reclamonas e mau humoradas, do evento chato da família, do programa passando sozinho na televisão, do silêncio chato do quarto. Que faz esquecer do tempo em que está para entrar no tempo em que ele é.
Livro bom é aquele que, aos poucos, vai pegando partes do seu coração e ao mesmo tempo vai dando partes dele pra sua vida não ficar tão incompleta assim... Pra quando você olhar pra uma situação cotidiana, lembrar dele e do que ele te ensinou. Pra quando você olhar pro mundo de novo (quando acabar de lê-lo), o veja de forma diferente.
É estranho pensar, mas livros bons têm vida. De verdade - e nos dão um pouco dela (também nos fazem perder grande parte social dessa vida para lê-los).
Há quem acredite que não se pode dormir com livros debaixo do travesseiro, não porque sejam duros, mas porque à noite eles sussurram, invadem nossos sonhos e acrescentam um pouco deles em nós.
Não é mentira.
Mas livros bons, de verdade, nos fazem perder o sono, seja pra varar a noite os lendo, seja pra passar a madrugada inteira olhando pro teto, pensando no vazio que o final deles nos deixou. Pensar no mundo que acabou de voltar, nos personagens que se foram e ficar remoendo o clímax, com uma pontada no estômago e uma dorzinha no coração, pensando em cada acontecimento como se fosse o flash back de um filme assistido, ou de vários dias vividos.
Livros bons são como paixões da adolescência: você bate o olho e se apaixona, fica junto. Cada momento é como se fosse único... e quando acaba, a primeira sensação que se tem é de que alguém levou parte do seu coração embora, da forma mais dolorida possível. Mas não demora muito, logo vem outro, preenche eu coração de novo e cada capítulo é como um encontro na pracinha num domingo à tarde.
Daí começa tudo de novo.
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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
Quartos e Soníferos
Reza a lenda que assim que um filho entra no quarto dos pais, deita na cama e olha pro teto (independente da hora do dia em que isso for acontecer) ele simplesmente pega no sono. É como se a cama tivesse um sonífero supermegapotente que fizesse com que quem entrasse no quarto pegasse no sono imediatamente - ainda mais se fosse um filho.
"É como se" não. É realmente isso o que acontece. Uma lenda hungariana antiga explica isso.
Houve um tempo em que o mundo era habitado somente por criaturas sobrenaturais: os responsáveis tanto pelas coisas simples da terra como fazer chover aqui, ventar acolá, quanto por coisas como a chegada do sol, a vinda da noite... Najla e Théoden, um casal desses seres sobrenaturais, cuidavam da chegada do sol e da vinda da noite, da chegada do sono e do despertar de cada ser que habitava o mundo. Esses seres nasciam das nebulosas do espaço, nuvens de poeira, hidrogênio, hélio e plasma. Ou seja: não vinham de si mesmos; seres sobrenaturais não podiam se relacionar, casar, ter filhos. No entanto, Najla e Théoden tiveram um filho.
Como castigo, o ser sobrenatural supremo disse que o filho não sobreviveria após nascer. Najla chorou tanto aos pés do ser supremo, que este poupou a vida da criança, mas advertiu os pais para que cuidassem bem dela, pois ao chegar na puberdade, acabaria cometendo o mesmo erro deles e se relacionaria com outra criatura sobrenatural da mesma espécie. Assim que isso acontecesse, o ser supremo não pouparia a vida, nem dela, nem da criança, nem da outra criatura que tivesse se relacionado com ela. Ao ouvir a maldição, ambos ficaram preocupados e imediatamente começaram a pensar no que fariam para que isso jamais chegasse a acontecer.
A criança finalmente nasceu e recebeu o nome de Arwy. Com o tempo, Arwy foi crescendo e os pais ficavam cada vez mais preocupados pois não sabiam como fariam para que a maldição não se concretizasse, até que o pai trouxe uma solução: eles manteriam a criança na idade em que estava - um dia antes de chegar à puberdade -, fazendo com que pegasse no sono, e só a acordariam quando chegasse à idade adulta.
Dito e feito: no dia seguinte, Arwy estava indo ao quarto dos pais para dar-lhes bom dia quando, ao pôr os pés no quarto, caiu no chão, adormecido. Najla se colocou em prantos e Théoden se entristeceu. Mas não tinham o que fazer, a não ser esperar o tempo passar e a maldição ir embora... A criança permaneceu no quarto deles, adormecendo, até chegar à idade adulta.
O tempo passou novamente e Arwy, embora adormecido, foi crescendo fisicamente cada vez mais, se tornando, conforme o passar dos dias, um grande homem.
Os pais, ficando mais seguros por ter passado a idade da maldição, despertaram o filho. Este, acordando sem entender nada, apenas ouviu a explicação dos pais e permaneceu no quarto enquanto os dois saíram para levar ao mundo a chegada do sol e do despertar dos seres (o que demorava uns três dias de viagem). Mas o que nem Najla, nem Théoden, muito menos Arwy, imaginavam era que, mesmo tendo a aparência de um homem, a tendência era que Arwy tivesse a maturidade de um adolescente. O ser supremo, ao saber que a "criança" havia despertado, imediatamente mandou uma criatura ao seu encontro, no quarto dos pais. Arwy deitou-se com ela e, depois disso, caiu morto na cama. A outra criatura foi embora e, depois de quatro semanas, morreu também, descobrindo que estava grávida.
Ao voltarem e dar de cara com o filho falecido na cama, Najla e Théoden choraram, tentaram pedir para que o ser supremo trouxesse de volta seu filho, mas tudo o que conseguiram foi um "Eu avisei" como resposta.
Os anos se passaram, o mundo começou a tomar forma e os humanos passaram a fazer parte dele e a ter filhos também. Théoden, temendo que o que aconteceu com ele acontecesse com os primeiros filhos dos homens, fez com que os quartos de todos os pais tivesse efeito sonífero, para que os filhos jovens não entrassem lá ou, quando entrassem, caíssem imediatamente em sono profundo.
Assim, a maldição de Théoden permanece até hoje mas, por ter passado uma quantidade bem maior de tempo, o sonífero não tem mais o mesmo efeito, fazendo com que os filhos peguem no sono somente por algumas horas... depois eles acordam e... bom, se levantam e vão embora, eu acho.
"É como se" não. É realmente isso o que acontece. Uma lenda hungariana antiga explica isso.
Houve um tempo em que o mundo era habitado somente por criaturas sobrenaturais: os responsáveis tanto pelas coisas simples da terra como fazer chover aqui, ventar acolá, quanto por coisas como a chegada do sol, a vinda da noite... Najla e Théoden, um casal desses seres sobrenaturais, cuidavam da chegada do sol e da vinda da noite, da chegada do sono e do despertar de cada ser que habitava o mundo. Esses seres nasciam das nebulosas do espaço, nuvens de poeira, hidrogênio, hélio e plasma. Ou seja: não vinham de si mesmos; seres sobrenaturais não podiam se relacionar, casar, ter filhos. No entanto, Najla e Théoden tiveram um filho.
Como castigo, o ser sobrenatural supremo disse que o filho não sobreviveria após nascer. Najla chorou tanto aos pés do ser supremo, que este poupou a vida da criança, mas advertiu os pais para que cuidassem bem dela, pois ao chegar na puberdade, acabaria cometendo o mesmo erro deles e se relacionaria com outra criatura sobrenatural da mesma espécie. Assim que isso acontecesse, o ser supremo não pouparia a vida, nem dela, nem da criança, nem da outra criatura que tivesse se relacionado com ela. Ao ouvir a maldição, ambos ficaram preocupados e imediatamente começaram a pensar no que fariam para que isso jamais chegasse a acontecer.
A criança finalmente nasceu e recebeu o nome de Arwy. Com o tempo, Arwy foi crescendo e os pais ficavam cada vez mais preocupados pois não sabiam como fariam para que a maldição não se concretizasse, até que o pai trouxe uma solução: eles manteriam a criança na idade em que estava - um dia antes de chegar à puberdade -, fazendo com que pegasse no sono, e só a acordariam quando chegasse à idade adulta.
Dito e feito: no dia seguinte, Arwy estava indo ao quarto dos pais para dar-lhes bom dia quando, ao pôr os pés no quarto, caiu no chão, adormecido. Najla se colocou em prantos e Théoden se entristeceu. Mas não tinham o que fazer, a não ser esperar o tempo passar e a maldição ir embora... A criança permaneceu no quarto deles, adormecendo, até chegar à idade adulta.
O tempo passou novamente e Arwy, embora adormecido, foi crescendo fisicamente cada vez mais, se tornando, conforme o passar dos dias, um grande homem.
Os pais, ficando mais seguros por ter passado a idade da maldição, despertaram o filho. Este, acordando sem entender nada, apenas ouviu a explicação dos pais e permaneceu no quarto enquanto os dois saíram para levar ao mundo a chegada do sol e do despertar dos seres (o que demorava uns três dias de viagem). Mas o que nem Najla, nem Théoden, muito menos Arwy, imaginavam era que, mesmo tendo a aparência de um homem, a tendência era que Arwy tivesse a maturidade de um adolescente. O ser supremo, ao saber que a "criança" havia despertado, imediatamente mandou uma criatura ao seu encontro, no quarto dos pais. Arwy deitou-se com ela e, depois disso, caiu morto na cama. A outra criatura foi embora e, depois de quatro semanas, morreu também, descobrindo que estava grávida.
Ao voltarem e dar de cara com o filho falecido na cama, Najla e Théoden choraram, tentaram pedir para que o ser supremo trouxesse de volta seu filho, mas tudo o que conseguiram foi um "Eu avisei" como resposta.
Os anos se passaram, o mundo começou a tomar forma e os humanos passaram a fazer parte dele e a ter filhos também. Théoden, temendo que o que aconteceu com ele acontecesse com os primeiros filhos dos homens, fez com que os quartos de todos os pais tivesse efeito sonífero, para que os filhos jovens não entrassem lá ou, quando entrassem, caíssem imediatamente em sono profundo.
Assim, a maldição de Théoden permanece até hoje mas, por ter passado uma quantidade bem maior de tempo, o sonífero não tem mais o mesmo efeito, fazendo com que os filhos peguem no sono somente por algumas horas... depois eles acordam e... bom, se levantam e vão embora, eu acho.
sábado, 3 de janeiro de 2015
A Lua e o Olho
Antigamente, quando ainda não haviam inventado os postes de luz, nem mesmo os a gás, as noites eram iluminadas apenas pela luz da lua. Exatamente nessa época, pais contavam a seus filhos o que lhes havia sido passado a respeito dela: é sabido que aparecia todas as noites não por acaso, ela servia remotamente como uma proteção ao povo.
A história a respeito da Lua surgiu há muito, mas muito tempo mesmo. Na época em que os pais ainda contavam histórias a seus filhos antes de dormir; em que as pessoas sentavam à mesa nas refeições e costumavam conversar, sem aquela coisa de televisão e internet. No tempo em que os ladrões saíam à noite e assaltavam as casas, no silêncio; em que bem e mal conviviam juntos e, se você não tomasse cuidado, poderia se tornar qualquer um deles - bastava só dar um encontrão no escuro.
Órion, filho dos céus e deus da guerra, era muito formoso e se destacava por seus olhos brancos como o leite puro.
No tempo em que os dias ainda duravam mais de vinte e quatro horas, Órion desceu à Terra e se apaixonou - uma pena ter sido justamente pela filha do homem mais machão e invencível do mundo mortal. Uma batalha de doze anos foi travada, entre os seres celestes e os homens mais bravos e guerreiros de todo o planeta (pelo menos da aldeia onde o deus da guerra havia descido). Por fim, num dos últimos golpes deferidos pelo homem mais machão e invencível do mundo mortal para cima do filho dos céus, a enorme e fugaz espada atingiu um de seus olhos, fazendo com que este saísse e se derramasse ao chão. Não podendo enxergar corretamente, acabou levando outro golpe de espada no peito e sua alma de deus foi ascendida.
O céu se entristeceu, de repente tudo escureceu. No mesmo instante em que Órion se foi, a guerra parou, os seres celestes sumiram e os homens foram tomados de um sentimento de dor e paz repentino. A única coisa que restara como vestígio da tal guerra havia sido o Olho de Órion. O deus do céu, vendo que a única coisa que restara de seu filho havia sido o olho - mais precisamente o direito -, resolveu recolhê-lo do chão e o transformou num vestígio celeste, tão brilhante como os próprios olhos do filho quando vivo terrenamente. Em meio a escuridão que tomara a aldeia inteira, o deus do céu colocou o Olho de Órion juntamente com as estrelas, iluminando o mundo inteiro. Cada vez que ficasse escuro, o Olho chegaria e traria luz àquilo que não se podia ver.
No entanto, por passar tanto tempo iluminando em grande parte os humanos, o Olho acabou pegando o temperamento dos homens, decidindo iluminar às coisas vez ou outra, apenas. Contudo, quando o Olho aparecia inteiro, as noites eram tranquilas, as pessoas dormiam bem, não havia assaltos e os vergonhosos dormiam escondidos. E quando o Olho aparecia em partes, ou nem mesmo resolvia aparecer, as noites eram mais difíceis, assaltos aconteciam, as ruas ficavam mais agitadas, os covardes saíam de suas casas para fazer tudo aquilo que era ruim - afinal, ninguém veria nada naquele escuro, não?
Desde então, os homens passaram a acreditar que dias bons vinham somente quando a Lua (ou o Olho) estava cheia.
A história a respeito da Lua surgiu há muito, mas muito tempo mesmo. Na época em que os pais ainda contavam histórias a seus filhos antes de dormir; em que as pessoas sentavam à mesa nas refeições e costumavam conversar, sem aquela coisa de televisão e internet. No tempo em que os ladrões saíam à noite e assaltavam as casas, no silêncio; em que bem e mal conviviam juntos e, se você não tomasse cuidado, poderia se tornar qualquer um deles - bastava só dar um encontrão no escuro.
Órion, filho dos céus e deus da guerra, era muito formoso e se destacava por seus olhos brancos como o leite puro.
O céu se entristeceu, de repente tudo escureceu. No mesmo instante em que Órion se foi, a guerra parou, os seres celestes sumiram e os homens foram tomados de um sentimento de dor e paz repentino. A única coisa que restara como vestígio da tal guerra havia sido o Olho de Órion. O deus do céu, vendo que a única coisa que restara de seu filho havia sido o olho - mais precisamente o direito -, resolveu recolhê-lo do chão e o transformou num vestígio celeste, tão brilhante como os próprios olhos do filho quando vivo terrenamente. Em meio a escuridão que tomara a aldeia inteira, o deus do céu colocou o Olho de Órion juntamente com as estrelas, iluminando o mundo inteiro. Cada vez que ficasse escuro, o Olho chegaria e traria luz àquilo que não se podia ver.
No entanto, por passar tanto tempo iluminando em grande parte os humanos, o Olho acabou pegando o temperamento dos homens, decidindo iluminar às coisas vez ou outra, apenas. Contudo, quando o Olho aparecia inteiro, as noites eram tranquilas, as pessoas dormiam bem, não havia assaltos e os vergonhosos dormiam escondidos. E quando o Olho aparecia em partes, ou nem mesmo resolvia aparecer, as noites eram mais difíceis, assaltos aconteciam, as ruas ficavam mais agitadas, os covardes saíam de suas casas para fazer tudo aquilo que era ruim - afinal, ninguém veria nada naquele escuro, não?
Desde então, os homens passaram a acreditar que dias bons vinham somente quando a Lua (ou o Olho) estava cheia.
Insônia
Dizem que quando demoramos pra dormir, é porque há grande possibilidade de ter alguém pensando na gente - mentira.
A verdade é que quando demoramos pra dormir, um outro ser respirante, em outra parte do universo, está dormindo em sono profundo. O que acontece é que, nesse universo, o número de seres respirantes que podem dormir é delimitado: enquanto um dorme, o outro tem de estar acordado.
Se você já chegou a ficar com insônia, demorando horas para pegar no sono, pense bem: talvez seja mesmo porque um ser de outro planeta esteja dormindo por você.
A verdade é que quando demoramos pra dormir, um outro ser respirante, em outra parte do universo, está dormindo em sono profundo. O que acontece é que, nesse universo, o número de seres respirantes que podem dormir é delimitado: enquanto um dorme, o outro tem de estar acordado.
Se você já chegou a ficar com insônia, demorando horas para pegar no sono, pense bem: talvez seja mesmo porque um ser de outro planeta esteja dormindo por você.
Sobre Spoilers
Há uma teoria que comprova:
Toda vez que alguém conta um spoiler
[Seja ele qual for]
Um planeta desaparece do universo
Um neurônio explode
Um passarinho bate a cabeça no vidro da janela cai na rua e é atropelado
Uma criança chora
Um rolo de filme é queimado
Uma pessoa morre
E essa pessoa pode ser você
O fulaninho que contou o bendito do spoiler.
Cuidado.
Não conte spoilers.
Toda vez que alguém conta um spoiler
[Seja ele qual for]
Um planeta desaparece do universo
Um neurônio explode
Um passarinho bate a cabeça no vidro da janela cai na rua e é atropelado
Uma criança chora
Um rolo de filme é queimado
Uma pessoa morre
E essa pessoa pode ser você
O fulaninho que contou o bendito do spoiler.
Cuidado.
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